segunda-feira, 21 de abril de 2014

Aderir ou não aderir? Eis a questão

Recentemente me fizeram a seguinte pergunta: “Como fazer um cliente aderir à terapia e não abandonar o seu terapeuta?” Respondi bem rapidamente dizendo que primeiramente não temos esse poder de manter o cliente conosco, vai depender da motivação desse cliente para ele se manter em terapia. Para que o cliente se sinta motivado a continuar no processo terapêutico devemos estabelecer um relacionamento de escuta não punitiva, permitindo que o cliente se expresse livremente. E em segundo lugar devemos analisar algumas variáveis envolvidas nessa motivação à terapia, que chamarei aqui de comportamentos de adesão. 

Como gosto de estudar, pesquisar e escrever sobre os transtornos de ansiedade, nesse texto não será diferente, escreverei sobre a adesão ao tratamento psicoterápico em pacientes com diagnóstico de transtorno de ansiedade, que foi um tema que desenvolvi em uma das minhas monografias do aprimoramento. 

Começo definindo adesão.

Adesão é definida como um comportamento complexo que inclui não só as características do cliente, mas também do clínico e das estratégias de tratamento utilizadas. Esses comportamentos complexos de acordo com Glasgow, Wilson e McCaul (1985), são chamados de comportamentos de auto-cuidado. Os comportamentos de auto-cuidado podem ser considerados comportamentos operantes, controlados por eventos ambientais. Dessa forma, diferentes contingências de reforçamento controlariam diferentes comportamentos de auto-cuidado. Como por exemplo, tomar medicamentos diariamente poderia ser considerado uma resposta de esquiva de complicações da doença (Sidman, 1953). Seguir uma dieta alimentar poderia ser comportamento controlado por regras (Skinner, 1966). O comportamento é modelado e mantido pelas suas consequências, mas apenas pelas consequências que ocorreram no passado (Skinner, 1991).

Quando falamos em adesão ao tratamento psicoterápico, estamos falando da relação terapeuta-cliente.

A importância de tal relação foi apontada por Guilhardi (1997), que afirmou que em uma sessão de terapia, os dados disponíveis para análise são os relatos do cliente e a relação terapêutica. Kerbauy (1999) complementou afirmando que as variáveis relevantes em clínica são categorias amplas que incluem resistência à mudança, relacionamento terapêutico e interação entre terapeuta e cliente. Há autores que consideram o relacionamento que ocorre em terapia o principal mecanismo de mudança do cliente. Para esses autores a relação terapêutica é uma oportunidade para que o cliente emita comportamentos que lhe têm trazido problemas e, a partir da interação com o terapeuta, aprenda formas mais efetivas de resposta com consequências menos punitivas. (Kohlenberg e Tsai, 2001).

Negligenciar a relação terapêutica pode ser considerada uma das maiores explicações para o fracasso do tratamento (Schindler, Hohenberger-Sieber e Hahlwerg, 1989 in Rangé, 2001). 

Os autores mais consagrados na literatura de terapia comportamental e relação terapêutica são Robert J. Kohlenberg e Mavis Tsai, os quais desenvolveram a Psicoterapia Analítica Funcional (FAP) baseada no conceito de reforçamento em situação clínica e generalização ao ambiente externo. O trabalho é realizado por intermédio da observação e intervenção nos comportamentos clinicamente relevantes (CRBs) que ocorrem na presença do terapeuta. Esses comportamentos são divididos em três tipos: CRB1 refere-se aos problemas do cliente; CRB2, aos progressos do cliente; e CRB3 às interpretações do cliente sobre seu próprio comportamento (Kohlenberg e Tsai, 2001). 

O conceito de aliança terapêutica é visto como um CRB2 por Kohlenberg e Tsai, os quais consideram a aliança um importante componente da relação cliente-terapeuta. Essa aliança gira em torno da habilidade do cliente de se envolver com a auto-observação, facilitando, portanto, outros CRBs (Kohlenberg, e Tsai, 2001). Em outras palavras, o terapeuta deve ser sensível o suficiente para identificar o tipo de relação terapêutica necessitada pelo cliente. É essa sensibilidade e a relação humana de aceitação e interesse que tem função terapêutica.

Outra forma de pensar a relação terapêutica é a considerando positiva quando há semelhança entre os objetivos do terapeuta e do cliente para a terapia. Se ambos dividem metas, significa que haverá colaboração mútua, ampliando a possibilidade de o tratamento ser bem sucedido. Essa definição de boa relação terapêutica deixa implícito algo bastante interessante: a importância da participação do cliente na terapia. O profissional deixa de ser pensado como alguém com conhecimento superior que ajudará alguém com problemas. Ambos passam a ser iguais em uma relação, sendo que um deles tem o objetivo de facilitar as descobertas do outro.

Como eu disse anteriormente, além da relação terapêutica, há outras variáveis envolvidas na adesão ao tratamento. Variáveis como: presença de suporte familiar (apoio da família), aceitação e entendimento de seu transtorno, consciência da necessidade do tratamento, ter compromisso com o tratamento (comparecer às sessões), comunicação adequada por parte do profissional (terapeuta utiliza linguagem acessível), são algumas das variáveis que contribuem para a adesão do cliente ao tratamento. O cliente que recebe explicações claras (psicoeducação) e compreende a base lógica do tratamento tem mais vontade de cooperar, eles gostam mais do profissional que o atende e quanto mais gostarem deste profissional, mais aderentes serão ao plano terapêutico. O relacionamento com a família também constitui uma variável de adesão ou não adesão. Estudos têm demonstrado que baixos níveis de conflitos, altos graus de união e organização, além de uma boa comunicação estão associados a um melhor regime de adesão (Delamater, 2001). 

E como é a adesão ao tratamento em clientes com diagnóstico de transtorno de ansiedade?

Ainda há poucas pesquisas que estudam procedimentos específicos para melhorar a adesão ao tratamento por pacientes com transtorno de ansiedade. Alguns estudos sugerem que as estratégias para garantir a adesão logo no início do tratamento podem ajudar na recuperação do paciente (De Araújo, Ito e Marks, 1996). 

A fobia social é um transtorno psiquiátrico que apresenta diversos fatores relacionados a baixos níveis de adesão (Malerbi, Savoia e Bernik, 2000). Os autores discutem que além dos fatores gerais relacionados à não adesão, há também os relacionados a doenças psiquiátricas e, mais importante, peculiaridades da fobia social como comportamentos de esquiva do contato social poder tornar mais difícil a interação cliente-terapeuta. Com objetivo de apontar e analisar os motivos que levaram clientes com padrões comportamentais característicos de fobia social a desistirem de psicoterapia grupal os autores verificaram que: a) clientes com antecedência de baixa aderência; b) percepção distorcida dos resultados do tratamento e de seu status clínico; c) falta de motivação para o tratamento; e d) a atribuição dos sintomas à personalidade ao invés de encará-los como doença foram preditores de baixa aderência ao tratamento.

No transtorno obsessivo-compulsivo verificou-se que 15% dos clientes desistem da terapia antes da melhora clínica e, os demais apresentam graus variados de adesão (De Araujo et al, 1996). Esses autores chamaram a atenção para o fato de que os clientes que fazem adequadamente a auto exposição e a prevenção de resposta em casa na primeira semana de tratamento são os que apresentam mais progresso quando avaliados sete meses depois e sugeriram que a preparação para o tratamento deveria incluir medidas educativas claras e detalhadas sobre as tarefas de casa. Salientaram também a importância de se informar ao cliente que a terapia de exposição pode melhorar os sintomas mais severos.

Clientes com transtorno de pânico devem receber tratamento psicofarmacológico e/ou psicológico. Os tratamentos mais utilizados englobam o uso de medicamentos, terapia comportamental, exercício de exposição, antidepressivo combinado com exposição ou terapia comportamental combinado com exposição, sendo que cerca de 20% dos clientes que recebem algum tipo de tratamento para o transtorno do pânico desistem do tratamento e uma porcentagem ainda maior demonstram baixa adesão (Van Balkom, Bakker, Spinhoven, Blaauw, Smeenk e Ruesink, 1997). 

Santin, Cerezer e Rosa (2005) realizaram uma revisão de literatura, a respeito da adesão ao tratamento do transtorno bipolar considerando que a má adesão seria uma das principais dificuldades encontradas em relação ao tratamento destes clientes. As autoras identificaram que as taxas de não adesão eram altas em transtorno bipolar, representando 47% em alguma fase do tratamento ou 52% durante um período de dois anos, e que fatores ligados ao cliente, aos medicamentos e aos médicos poderiam ser responsáveis pela baixa adesão. Propuseram, como uma das medidas para melhorar a adesão dos clientes bipolares, identificar as atitudes que os fazem interromper o tratamento e discuti-las com o cliente nas consultas, promovendo informação e conhecimento sobre o transtorno e o tratamento.

O tratamento dos transtornos de ansiedade é um processo dinâmico no qual os sujeitos estão em contato com uma variedade de fatores que influenciam sua continuidade ou a descontinuidade, facilitar a adesão e aderir ao tratamento não são tarefas fáceis; são desafios que sofrem oscilações e demandam atenção contínua. Dessa forma adesão depende da provisão de métodos, ferramentas e incentivos específicos e especialmente do grau de envolvimento do cliente e do profissional no tratamento. 

Adesão ao tratamento também inclui fatores terapêuticos e educativos relacionados aos clientes, envolvendo aspectos ligados ao reconhecimento e à aceitação de suas condições de saúde, a uma adaptação ativa a estas condições, à identificação de fatores de risco no estilo de vida, ao cultivo de hábitos e atitudes promotores de qualidade de vida e ao desenvolvimento da consciência para o autocuidado.


Referências
  
Delamater, A. M. (2001). Improving patient adherence. Clinical Diabetes. 24 (2): 71-77.  

De Araujo, L. A.; Ito, L. M. E Marks, I. M. (1996). Early compliance and other factors   predicting outcome of exposure for obsessive-compulsive disorder. British journal of   Psychiatry, 169, 747-752.

Guilhardi H. J. (1997). Com que contingências o terapeuta trabalha em sua atuação clínica? In R. A. Banaco (Org.), Sobre o Comportamento e Cognição: Aspectos Teóricos, Metodológicos e de Formação em Analise do Comportamento e da Terapia Cognitivo-Comportamental. Santo André, SP: ARBytes Editora.

Glasgow, R. E.; Wilson, W E McCaul, K. D. (1985). Regimen Adherence: A Problematic Construct in Diabetes Research. Diabetes Care, 8, (3), 300-301.

Kerbauy, R. R. (1999) Pesquisa em terapia comportamental: Problemas e soluções. Em Kerbauy, R. R., e Wielenska, R. C. (Orgs). Sobre Comportamento e Cognição: Psicologia Comportamental e Cognitiva da reflexão teórica a diversidade na aplicação. Vol 4, 1ª ed., pp. 61 68. Santo André, SP: ARBytes Editora.

Kohlenberg, R. J. E Tsai, M. (2001). Psicoterapia analítica funcional: criando relações terapêuticas e curativas. Tradução Organizada por R. R. Kerbauy. Santo André: ESETEc, Editores Associados.

Malerbi, F. K; Savoia, M. G; Bernik, M. A. (2000). Aderência ao tratamento em fóbicos sociais: um estudo qualitativo. Revista brasileira de terapia comportamental e cognitiva 2(2): 147-155.

Malerbi, F. E. K. (2000). Adesão ao tratamento. In R. R. Kerbauy (org.). Sobre Comportamento e Cognição 5. Santo André: ARBytes Editora.

Santin, A.; Cereser K.; Rosa A. (2005). Adesão ao tratamento no transtorno bipolar.   Revista Psiquiatria Clínica, São Paulo, v. 32, p.105-109, suplemento 1.

Sidman, M. (1953). Avoidance conditioning with brief shock and no exteroceptive warning signal. Science. Aug 7;118(3058):157–158.

Shinohara, H. (2000). Relação terapêutica: o que sabemos sobre ela? In R. R. Kerbauy (org.). Sobre Comportamento e Cognição 5. Santo André: ARBytes Editora.

Skinner, B. F. (1966). The behavior of organisms: An experimental analysis. New York: Appleton-Century.

Skinner, B. F. (1991). Questões Recentes na Análise Comportamental. Campinas:
Papirus. Cap.3. Publicação original 1989.
Skinner, B. F. (2000). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

Van Balkmon, A. J. L. M., Bakker, A., Spinhoven, P. H., Blaauw, B. M. J. W., Smeenk, S., & Ruesink, B. (1997). A meta-analysis of the treatment of panic
disorder with or without agoraphobia: A comparison of psychopharmacological, cognitive-behavioral, and combination treatments. The journal pf nervous and mental disease, 185, 510-516.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Redução da esquiva experiencial e produção de novos repertórios comportamentais em pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo - novas propostas de intervenções clínicas.

Confesso que sou fã de várias séries de TV e inúmeras vezes me pego fazendo análises funcionais de alguns personagens, entre as séries que gosto de assistir está “Monk - um detetive diferente”. 
O personagem que dá nome à série, Adrian Monk cresceu com Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), incluindo uma série de tiques e fobias. 
Na série conseguimos identificar que os sintomas de Monk pioraram após um evento traumático. 
Monk era um detetive brilhante de homicídios, trabalhava para o Departamento de Polícia de São Francisco, até que sua esposa Trudy morreu numa explosão de carro ao sair para comprar um remédio para o irmão de Monk. Ao saber do acidente e não conseguir encontrar quem matou sua esposa, Monk sofreu um colapso nervoso e a partir desse evento, suas fobias (por germes, altura, multidão) se agravaram e interferiram de modo significativo em sua vida ao ponto de precisar ser afastado do trabalho. Monk se isolou, recusando sair de sua casa por três anos. Com a ajuda de uma enfermeira, que faz o trabalho de AT (acompanhamento terapêutico) Monk volta aos poucos à vida. Torna-se consultor particular para a polícia em casos muito difíceis. No trabalho Monk utiliza várias técnicas para solucionar cada caso e suas técnicas são vista como esquesitices de um portador de TOC, deixando alguns de seus colegas de trabalho irritados. Apesar da irritação que seu comportamento provoca, Monk é respeitado, pois sua habilidade de observação e sua atenção obsessiva permitem que ele perceba coisas minúsculas, e faça as conexões necessárias que ninguém mais faz em uma investigação.


O Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) é um transtorno descrito pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana (DSM-IV) como pertencente aos transtornos de ansiedade. As principais características desse transtorno são obsessões e/ou compulsões persistentes que fazem com que a pessoa perca tempo, sofra ou tenha sua vida prejudicada por causa delas. Muitos pesquisadores estão estudando as causas do TOC, mas ainda não conseguiram esclarecer suas verdadeiras causas. Acredita-se que ela seja decorrente da combinação entre fatores hereditários ou genéticos (genes que conferem maiores chances a certas pessoas de desenvolverem o problema) e ambientais, como evolução da gravidez, condições do parto, infecções, acontecimentos da vida e fatores psicológicos, entre outros (Shavitt, Bravo, Baltieri & Miguel, 2001). No caso de Monk o desencadeante do transtorno foi um evento ambiental (a morte de sua esposa - acontecimentos da vida). 
O analista do comportamento leva em consideração os fatores citados acima e, além disso, busca entender o porquê aquele comportamento está sendo mantido e que consequências traz para o seu cliente; isso é feito por meio da análise funcional. A análise funcional permite ao analista do comportamento identificar a função de um determinado comportamento. De acordo com Matos (1999) fazer análise funcional é: 1 – identificar a função, ou seja, o valor de sobrevivência de determinado comportamento, 2 – entender porque determinado comportamento está sendo selecionado e mantido e 3 – verificar as consequências que certos comportamentos produzem. No caso do TOC os pensamentos e rituais compulsivos têm (em geral) a função de reforçamento negativo. Na presença de um evento ameaçador ou incômodo, o indivíduo emite uma resposta (aberta ou encoberta) que elimina, ameniza ou adia esse evento. Por exemplo, uma pessoa com obsessões de sujeira e contaminação pode evitar dar a mão às pessoas ao cumprimentá-las (comportamento de esquiva), ou quando as cumprimentam imediatamente dão um jeito de lavar as mãos ou usam álcool gel para higienizá-las (comportamento de fuga). As respostas envolvidas nesse processo podem ser classificadas topograficamente como respostas de evitação e/ou eliminação do estímulo temido (Banaco & Zamignani, 2005).
A intervenção proposta para o tratamento do TOC é a exposição com prevenção de respostas, onde o cliente é exposto a uma situação ansiogênica e pede-se que ele abstenha-se de realizar qualquer ritualização (bloqueio de esquiva). Essas estratégias têm-se mostrado bastante eficazes em alguns casos, no entanto em casos de clientes com TOC pode se tornar um procedimento extremamente aversivo. 
Novas propostas de intervenções terapêuticas estão sendo utilizadas como alternativa para o tratamento do comportamento de esquiva, promovendo assim um comportamento de enfrentamento e aceitação. Entre as novas propostas estão a Psicoterapia Analítico-Funcional (FAP) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). 
A FAP utiliza a relação terapêutica como o principal meio para modificar comportamentos clinicamente relevantes do cliente. De acordo com Kohlenberg e Tsai (1991), o cliente se comporta em relação ao terapeuta semelhantemente ao modo como se comporta com outras pessoas significativas em sua vida. O trabalho na FAP é realizado por intermédio da observação e intervenção nos comportamentos clinicamente relevantes (CRBs) que ocorrem na presença do terapeuta. Esses comportamentos são divididos em três tipos: CRB1, CRB2 e CRB3. O CRB1 se refere aos comportamentos “problemas” do cliente que ocorrem nas sessões. O CRB2 são os comportamentos de baixa ocorrência no início da terapia e que serão alvos de reforçamento por caracterizar progressos comportamentais que ocorreram ao longo das sessões psicoterápicas, envolvendo um repertório mais assertivo. O CRB3 refere-se à fala dos clientes sobre seu próprio comportamento e o que parece causá-lo; é uma análise funcional por parte do cliente das variáveis que controlam seu comportamento dentro da relação terapêutica.
No caso de clientes com diagnóstico de TOC o CRB1 são tipicamente comportamentos de esquivas. No decorrer do processo terapêutico o CRB1 deve diminuir de frequência e CRB2 e CRB3 devem aumentar de frequência e para que isso ocorra é fundamental que o terapeuta se mantenha como uma audiência não-punitiva. Na FAP, as técnicas são dispostas sob a forma de regras. Ao contrário do significado ameaçador ou rígido que é associado ao uso comum do termo, é proposto que essas regras sejam compreendidas segundo o conceito skinneriano de comportamento verbal (Skinner, 1957, p. 339), depois elaborado por Zettle e Hayes (1982). Neste contexto, as 5 regras da FAP são sugestões para o comportamento do terapeuta, as quais resultam em efeitos reforçadores para o terapeuta. Regra 1: observar atentamente o comportamento que ocorre na sessão para intervir no momento certo; Regra 2: criar condições para evocar os comportamentos-problema e as oportunidades de aprendizagem (criar condições para desenvolvimento de CRB2); Regra 3: reforçar os progressos do cliente quando ocorrem em sessão (reforçar positivamente CRB2); Regra 4: observar os efeitos potencialmente reforçadores do comportamento do terapeuta em relação aos CRBs do cliente; Regra 5: fornecer ao cliente interpretações de variáveis que afetam o seu comportamento, ou seja, dar modelos de análises funcionais que levem o cliente à aprendizagem e ao autoconhecimento. 
A ACT, sigla para Acceptance & Commitment Therapy (Terapia da Aceitação e Compromisso) é uma psicoterapia criada por Hayes e seus colaboradores em 1987, baseada na teoria dos quadros relacionais (RFT). A teoria dos quadros relacionais (Relational Frame Theory - RFT) é uma abordagem analítico-comportamental para a linguagem humana e a cognição. A RFT explica como o comportamento simbólico funciona, como as pessoas agem não a partir de um estímulo, mas a partir de relações entre estímulos. 
O principal objetivo da ACT é enfraquecer o sistema verbal/linguístico em que os quadros relacionais foram formados promovendo assim uma flexibilidade psicológica (aceitação – aceitar os eventos privados desagradáveis e concentrar as ações do cliente a serviço de uma vida mais significativa), fazer o cliente enfrentar seus pensamentos, emoções e lembranças que o cliente tenta evitar por estarem associados com o sofrimento e educá-lo para a busca de reforçadores alternativos (escolha e engajamento em novos comportamentos; compromisso com a mudança). 
Como mencionado anteriormente o comportamento de esquiva é bastante frequente em clientes com TOC, pois quando o cliente identifica estímulos que desencadeiam suas obsessões e ansiedade ele passa a evitá-los ativamente (Lotufo-Neto, et al. 1997). A ACT promove a observação e aceitação desses eventos, pois tentar controlar ou evitar esses conteúdos (fuga/esquiva) é o problema e não a solução; quanto mais o cliente tenta fugir ou exercer o controle sobre os eventos privados, menos controle ele tem sobre suas vidas. Portanto quando o cliente deixa de lutar contra seus próprios pensamentos, avaliações e sentimento ele passa a se comportar de maneira produtiva sobre seu ambiente. Para que o cliente passe a se comportar de maneira produtiva sobre seu ambiente, o terapeuta utiliza alguns exercícios, metáforas e paradoxos durante as sessões. Segundo Saban (2011) as metáforas têm um caráter menos específico e, por isso o cliente tem maior dificuldade de vê-las como uma regra. Elas não têm uma lógica racional, pois são mais como uma imagem, além de serem mais fáceis de lembrar e de aplicar a outras situações. Ainda de acordo com Saban (2011) o paradoxo inerente é uma contradição entre propriedades literais e funcionais de um evento verbal. Trata-se de uma construção verbal sobre eventos parcialmente verbais e não-verbais que evidenciam a diferença de qualidade entre eles. E por fim os exercícios proporcionam uma experiência com eventos privados em um ambiente seguro e sem julgamento, o que promove uma mudança de contexto destes, enfraquecendo seus valores aversivos.
A FAP se ajusta muito bem a clientes que não obtiveram uma melhora adequada com as terapias comportamentais convencionais e àqueles que têm dificuldades em estabelecer relações de intimidade e/ou têm problemas interpessoais difusos (Kohlenberg e Tsai, 1991). 
A ACT, por sua vez, leva o cliente a analisar as tentativas frustradas de resolver seus problemas por meio de metáforas e exercícios. As metáforas são uma característica marcante da ACT e são úteis por serem menos diretas, não são vistas pelo cliente apenas como um conjunto de regras a seguir e então o levam à reflexão (Saban, 2011).
Será que Monk se beneficiaria dessas intervenções? Penso que sim, uma vez que elas possibilitam a redução da esquiva experiencial e novos repertórios comportamentais poderão ser produzidos.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O que está por trás do uso excessivo dos artifícios tecnológico? A tecnologia pode ajudar?

No meu texto anterior escrevi sobre como o mau uso da tecnologia está afetando as relações interpessoais, enfatizei o fato de que as pessoas estão se afastando de seus círculos de convivência reais e vivendo em um mundo virtual. Parafraseando Einstein (“Eu temo o dia em que a tecnologia ultrapasse nossa interação humana, e o mundo terá apenas uma geração de idiotas”), podemos dizer que a tecnologia já ultrapassou a interação humana, eu temo a geração que está surgindo, é uma geração de pessoas com um pobre repertório comportamental, é uma geração de pessoas que sofrem de uma ansiedade da informação. 

As pessoas se habituaram a ficar com seus celulares, computadores ou tablets conectados à internet 24 horas por dia e quando se percebem sem o seu aparelho ou sem conexão, a ansiedade dessas pessoas sobem a um nível assustador. Médicos ingleses chamam essa necessidade de manter-se conectado o tempo todo de nomofobia. O nome vem de “no mobile phobia”, que traduzido seria “medo de ficar sem celular”. O celular parece que virou uma extensão do corpo. 

Já ouvi relatos do tipo: “se não estou com meu celular me sinto pelado (a), fico totalmente perdido (a), fico ansioso (a), não consigo me concentrar direito, sinto tensão nos ombros e quero sair logo de onde estou e pegar meu celular, e não basta só o celular é preciso estar conectado à internet, vai que nesse meio tempo eu recebo um torpedo, ou e-mail ou algo de interessante acontece e eu fico sabendo só mais tarde, aí já fiquei pra trás”.

É frequente ouvir relatos como este e a partir dele percebemos que o uso exagerado desses dispositivos eletrônicos portáteis (celulares, tablets, iphones, mp3, notebooks), conhecidos também como gadgets, não só está afastando as pessoas, mas também está causando outros tipos de problemas à saúde, entre eles estão a obesidade, problemas de postura (dores nas costas e pescoço), problemas visuais, insônia, dificuldades de aprendizagem e o mais comum nos consultórios de psicologia e explícito no relato acima, são os chamados transtornos de ansiedade.

A ansiedade é definida como um estado de humor desconfortável, acompanhada de sensações físicas como: frio no estômago ou na espinha, opressão no peito, palpitações, transpiração, dor de cabeça, falta de ar, dentre outros sintomas.

A ansiedade é um sinal de alerta, que adverte sobre perigos iminentes e capacita o indivíduo a tomar medidas para enfrentar ameaças. A ansiedade prepara o indivíduo para lidar com situações potencialmente danosas, como punições ou privações, ou qualquer ameaça a unidade ou integridade pessoal, tanto física como moral. Desta forma, a ansiedade prepara o organismo a tomar as medidas necessárias para impedir a concretização desses possíveis prejuízos, ou pelo menos diminuir suas consequências. Portanto a ansiedade é uma reação natural e necessária para a autopreservação.

Segundo Andrade e Gorenstein (1998), a ansiedade é um estado emocional que faz parte do espectro normal das experiências humanas e apresenta componentes psicológicos e fisiológicos. 

Bernik (1999) afirma que quatro componentes estão presentes nas manifestações de ansiedade, ou seja, manifestações cognitivas (pensamentos de apreensão quanto a um desfecho negativo de uma situação), emocionais (vivencias subjetivas de desprazer ou desconforto), comportamentais (inquietação, sobressalto, evitação, etc.) e somáticas (hiperatividade autonômica, tensão muscular, etc.).

A ansiedade passa a ser patológica quando não existe um objeto específico ao qual se direcione ou quando é desproporcional à situação que a desencadeia. Uma pessoa que tenha uma reação ansiosa inadequada e/ou extrema ou de longa duração a um determinado acontecimento pode estar sofrendo de algum tipo de transtorno de ansiedade. De acordo com o DSM IV os transtornos de ansiedade classificados são: transtorno de pânico com ou sem agorafobia, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno de estresse agudo, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de ansiedade devido a uma condição médica geral, transtorno de ansiedade induzida por substância, transtorno de ansiedade não especificado, agorafobia sem história de transtorno de pânico, fobia específica, fobia social.

O padrão comportamental característico dos transtornos de ansiedade, de acordo com grande parte da literatura, é a esquiva fóbica: na presença de um evento ameaçador ou incômodo, o indivíduo emite uma resposta que elimina, ameniza ou adia esse evento. O que diferencia cada um destes transtornos é o tipo de evento experimentado como ameaçador ou incômodo e/ou o tipo de resposta na qual o sujeito se engaja de forma a produzir uma diminuição do contato com o estímulo aversivo (processos de fuga/esquiva). As respostas envolvidas nesse processo podem ser classificadas topograficamente como respostas de evitação e/ou eliminação do estímulo temido, assim como respostas de verificação ou outras respostas repetitivas que pospõem ou eliminam temporariamente a ameaça da apresentação desse estímulo. (Banaco e Zamignani, 2004). A evitação ajuda a manter os sintomas de ansiedade, pois impede o indivíduo de aprender que o objeto temido de fato não é perigoso, ou pelo menos não é tão perigoso quanto o paciente imagina. 

Dentre os transtornos de ansiedade a fobia social é um dos transtornos mais comum que está por trás do uso excessivo dos gadgets. Virtualmente o fóbico social se mostra como ele gostaria de ser na realidade. Ele se comunica com o mundo por trás das telas. Os fóbicos sociais dizem que gostaria de se comunicar tão bem no seu círculo de convivência real assim como fazem em seu mundo virtual. A internet é considerada por eles um ambiente seguro para se relacionar com os amigos virtuais, uma vez que é um ambiente repleto de reforços e bem menos aversivo. No facebook a cada curtida ou comentário (reforço positivo) que ele recebe em suas postagens demonstra o quão popular ele é “virtualmente”. Quanto mais curtidas e mais comentários receber maior a probabilidade de que este comportamento seja repetido no futuro. 

Um aplicativo que vem sendo bastante utilizado por jovens é o Line, a propaganda diz “Fale menos, Line mais. Você diz muito mais com os milhares de stickers do Line”, uma ferramenta e tanto para os fóbicos sociais, uma vez que eles sentem-se acuados quando as pessoas olham para eles. Imaginam que quando estão sob a mira do olhar do outro estão sendo observado e avaliado, o que aumenta o grau de ansiedade. Neste aplicativo é possível as pessoas se comunicarem por mensagens e demonstrarem suas emoções/sentimentos através desses stickers divertidos. 



As pessoas diagnosticadas com este transtorno (FS) apresentam uma hipersensibilidade a críticas, mantêm uma avaliação negativa a respeito de si mesma, se sentem inferiorizadas, e apresentam grande dificuldade em serem assertivas (Lamberg, 1998; Stopa; Clark, 1993). Um comportamento assertivo envolve a afirmação dos próprios direitos e a expressão de pensamentos, sentimentos e crenças de maneira direta, honesta e apropriada, de modo a não violar o direito das outras pessoas (Lange & Jakubowski, 1978). 

De acordo com Alberti e Emmons (1973/1978) pessoas que apresentam respostas assertivas em situações sociais, tem um nível de ansiedade baixo em relação às pessoas que tem dificuldade de serem assertivas. Os fóbicos sociais por apresentarem essa dificuldade de serem assertivos apresentam um nível alto de ansiedade em situações sociais. Eles se esquivam a todo custo de qualquer situação social, mas quando é inevitável se expor, os fóbicos sociais o fazem com grande sofrimento e na internet o sofrimento é menor. Por este lado a internet ou as mensagens de texto pelos celulares são grandes aliados dessas pessoas uma vez que a exposição não é ao vivo, eles ficam confortavelmente escondidos atrás das telas, mas por outro lado eles deixam de se expor e continuam nesse ciclo de ansiedade. 

A melhor intervenção para o tratamento psicológico da fobia social é a exposição. A técnica de exposição consiste em expor o cliente repetidas vezes e por um tempo prolongado às situações que provocam desconforto ou ansiedade, geralmente maximizando a estimulação aversiva. As exposições geralmente são realizadas de forma gradual, partindo dos estímulos que produzem menor sofrimento ou sofrimento moderado, em direção àqueles mais perturbadores. As sessões de exposição aos estímulos ansiogênicos podem ser realizadas de forma imaginária ou in vivo (exposição real). Além disso, os pacientes são instruídos a engajar-se em exercícios adicionais de exposição entre as sessões terapêuticas (Riggs e Foa, 1999). 

O fóbico social evita o contato visual e o uso do celular é muito usado por eles para evitar olhar para as pessoas. Quando ele está numa situação de exposição o ideal é ele não usar o celular ou tablet enquanto estiver na situação social. O uso de celulares traz um alívio momentâneo da ansiedade, pois ele está na situação geradora de ansiedade, mas não a está enfrentando. Quando ele vai para essas situações com seu celular conectado à internet ele continua no seu mundo virtual. 

Mas ela (tecnologia) não é todo um mal, não estou atribuindo à tecnologia a causa desses transtornos. Esses problemas sempre existiram, mas com os avanços tecnológicos eles tomaram outra cara. Eu faço uso e muito desses artifícios tecnológicos, imagine como vocês iriam ter acesso a este texto se não fosse ela? Sem ela muita gente não teria a chance de seguir estudando e galgando degraus. Mais de 15% dos universitários brasileiros estão hoje matriculados na modalidade de ensino superior à distância, em que quase tudo é on-line, diz uma reportagem publicada recentemente na Revista Veja. O que dizer então de Skinner que na década de 60, desenvolveu as “máquinas de ensinar”, naquela época ele se mostrou muito a frente de seu tempo, foi um grande avanço tecnológico. E para os fóbicos sociais de plantão, a tecnologia está sendo utilizada em uma pesquisa realizada por uma psicóloga que vem tratando portadores desse transtorno. Com um programa de computador os pacientes são submetidos virtualmente às situações sociais que mais lhe trazem desconforto. O trabalho desta psicóloga tem como base a terapia cognitiva comportamental e a técnica de exposição.

Afinal de contas: A tecnologia pode ajudar? Sim eu acho que a tecnologia pode ajudar, nos dias de hoje é um grande desafio para nós se desconectar da tecnologia. Ninguém mais hoje vive sem a tecnologia, por mais simples que ela seja, seria um retrocesso se eliminássemos todos esses avanços. Eliminar a pesquisa científica significaria, agora, um retorno a forme e à peste, e aos trabalhos exaustivos de uma cultura escrava, como disse Skinner no capítulo “A ciência pode ajudar?” em seu livro “Ciência e Comportamento Humano”. Talvez não seja a ciência que está errada, mas sua aplicação. Talvez não seja a tecnologia que está errada, mas o mau uso dela.


Referências
ALBERTI, R. E.; EMMONS, M. L. (1973/1978). Comportamento Assertivo: um guia de auto expressão. Belo Horizonte: Interlivros.

Andrade, L. H. S. G.; Gorenstein, C. (1998). Aspectos gerais das escalas de avaliação de ansiedade. Revista de Psiquiatria Clínica, 25(6), 285-90.

Banaco, R. A.; Zamignani, D. R. (2004). Um panorama analítico – comportamental sobre os transtornos de ansiedade. PUC. São Paulo. 2004

Bernik, M. A. (1999). Ansiedade Normal e Patológica. Em Benzodiazepínicos. (pp. 59-67). São Paulo: EDUSP.

LAMBERG, L. (1998). Social phobia: Not Just another name for shyness. Journal of Clinical Psychiatry, 60 (suppl 18), 22-26.

SKINNER, B.F. (2000). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

STOPA, L & CLARK, D. M. (1993). Cognitive process in social phobia. Behaviour Research and Therapy, 31 (2), 255-267.

RIGGS, D. S.; FOA, E. B. (1999). Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Em: David, H. Barlow: Manual Clínico dos Transtornos Psicológicos. Porto Alegre: Artmed.

Revista VEJA - Edição 2341 - 02 de Outubro de 2013 - A Educação do futuro agora



sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Boteco Behaviorista

O próximo Boteco Behaviorista promete...teremos o prazer de ouvir Steven Hayes. 
Não  percam, será este domingo (27/10) às 22 horas.
Nos encontramos nesse Boteco!!!


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Psicologia Experimental: Análise do Comportamento

O curso de verão em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento introduz, revisa e aprofunda os principais tópicos da área de análise do comportamento. Abrange pressupostos filosóficos, conceitos básicos, pesquisas básica e aplicada, questões atuais e questões controversas, comportamento verbal, modelos experimentais e metodologias de pesquisa.
O objetivo desse curso de extensão é capacitar os participantes para as exigências da profissão, promovendo a vivência da prática com a pesquisa acadêmica.
O conteúdo do curso aborda três linhas de pesquisa: história e fundamentos epistemológicos, metodológicos e conceituais da análise do comportamento, processos básicos da análise do comportamento e desenvolvimento de metodologias e tecnologias de intervenção.




Maiores informações no site da instituição: clique aqui e acesse

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Comportamento em foco

Acabou de sair o 2º volume da coleção Comportamento em foco (ABPMC), sucessora da coleção Sobre Comportamento e Cognição.
Leia o segundo volume clicando aqui
Boa leitura!!!

sábado, 21 de setembro de 2013

O domínio da tecnologia afetando as relações interpessoais.




O dia que Einstein temia chegou, essa “geração de idiotas” pode ser vista por todos os cantos das várias cidades sem distinguir classe social; mas acho forte dizer “geração de idiotas” e prefiro dizer “geração de pessoas com um pobre repertório comportamental”.
Já pararam para observar como estão ficando, o almoço de domingo, o encontro entre amigos, os intervalos dos colégios? As pessoas ficam o tempo todo checando o seu smartphone, iphone ou tablet, estão totalmente conectadas e imersas no seu mundo virtual, ignorando o que se passa em seu redor. Muitas vezes as pessoas estão uma ao lado da outra, mas se utilizam dessa tecnologia se comunicando pelo WhatsApp, Skype ou pelo famoso facebook.
De fato é bem mais prático utilizar-se desses recursos para se comunicar; por exemplo, se precisamos pedir um favor a um colega de trabalho podemos simples e rapidamente enviar uma mensagem, ao invés de ter que emitir uma classe de respostas (levantar-se da cadeira, abrir a porta, ir até a sala do colega, olhar para o colega, falar com o colega, ver a reação do colega). As tecnologias proporcionam conhecimentos e facilidades impressionantes, mas ao mesmo tempo ela está encurtando essa classe de respostas, está afastando as pessoas, provocando um isolamento social. O contato físico, as conversas face a face estão se extinguindo e uma geração de pessoas com um pobre repertório de habilidade social está surgindo.
As habilidades sociais podem ser entendidas como o conjunto de comportamentos aprendidos verbais e não verbais (expressão facial, postura, contato visual, gestos, aparência física), que requerem iniciativa e respostas e que afetam a relação interpessoal (Maher e Zins, 1987).
Para Caballo (1996), o comportamento socialmente habilidoso é o conjunto de comportamentos emitidos por um indivíduo em uma situação interpessoal que expressa seus sentimentos, atitudes, desejos, opiniões ou seus direitos, de um modo adequado ao contexto em que estiver inserido, respeitando o direito do outro e resolvendo e minimizando problemas ou a probabilidade futura dos mesmos.
Ao enviar uma mensagem ao colega de trabalho solicitando um favor, deixamos de perceber como nosso colega irá reagir ao pedido, assim como deixamos de expressar nossos sentimentos, nossas opiniões. Na mensagem é permitido fazer edições tornando-a atraente e caso a resposta seja positiva, a probabilidade de que este artifício seja novamente utilizado torna-se alta. Mandar a mensagem foi consequênciada por uma resposta positiva - “sim”. E se a resposta for negativa? É bem provável que iremos nos esquivar deste colega por um bom tempo. Deixaremos de nos relacionar com um colega por um simples “não” e deixaremos de compreender os reais motivos dele ter negado o favor, deixaremos de expressar nossos sentimentos em relação à atitude de nosso colega. Aqui a mesma resposta “mandar a mensagem” foi consequênciada por uma resposta negativa – “não”.
O famoso facebook é uma ferramenta utilizada por milhares de pessoas, onde elas postam tatos e mandos disfarçados, revelando mais uma vez a falta de habilidade social desses usuários. O tato é o operante verbal que faz contato com o mundo, ou seja, pode descrevê-lo. Ao emitir um tato, o falante está dizendo a respeito de algo, descrevendo o que é sentido ou um evento ocorrido. O mando disfarçado pode evidenciar dificuldade por parte do falante de se comportar assertivamente, assim como pode evidenciar uma maneira de se esquivar de possíveis punições. São exemplo de mando respostas verbais tradicionalmente chamadas de ordens, pedidos e avisos. Skinner salienta que o repertório verbal de mandos, em geral, opera em benefício do falante, uma vez que produz como conseqüência um reforçador específico.
É comum observar nos status desses usuários expressões de afetos, amor, raiva, pedidos de mudança no comportamento da outra pessoa, solicitação de favores, pedidos de desculpas, pedidos de amizades. Há formas mais positivamente reforçadoras de se solicitar algo a alguém, mas o facebook tornou-se um aliado para esses usuários, uma vez que nele as punições são mais fáceis de serem “encaradas”.
Essa nova geração que Einstein nomeou de “geração de idiotas” é uma geração que se beneficia da tecnologia, porém é uma geração onde a habilidade para falar ou se comunicar frente a frente, olho no olho está se tornando rara.



O uso da tecnologia se utilizado com parcimônia só tem a contribuir com seus usuários.


Referências
 CABALLO, V. E. (1996). Manual de técnicas de terapia e modificação do comportamento. Ed. Santos, São Paulo.
Maher, C.A. e Zins, J. E. (1987). Psychoeducational interventions in the school. Pergamon Press, New York.
SANTOS, G. M.; SANTOS, M. R. M.; CUNHA-MARCHEZINI, V. (2012). Operantes Verbais. In: Clínica analítico-comportamental: aspectos teóricos e práticos. Nicodemos Batista Borges [et al.]. Porto Alegre : Artmed.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Máquina de Testes x Máquina de Ensinar

Saiu no Jornal o Estado de São Paulo, o famoso Estadão: 

Escola da Rocinha vira modelo para colégios municipais do Rio

Programa de avaliação dos alunos está sendo usado nas escolas com mais baixo desempenho da rede municipal, explica secretária de Educação da cidade.

Encravada na Favela da Rocinha, no Rio, a Escola Municipal André Urani foi criada neste ano e já é um modelo de educação no País, pelo uso das ferramentas tecnológicas de ensino. No computador, cada estudante segue um caminho individual, que reúne o que ele precisa aprender. O itinerário tem opções de exercícios, e o aluno escolhe o que fará. Ao mesmo tempo em que o ritmo de aprendizado de cada um é respeitado, professores acompanham o que o aluno está aprendendo. 
Semanalmente, o estudante é avaliado na Máquina de Testes, um programa que apresenta questões com diferentes níveis de dificuldade. A máquina registra os níveis alcançados e, se o resultado não for adequado, o próprio programa o encaminha às aulas de reforço e jogos referentes aos conteúdos considerados mais difíceis pelo aluno, no portal de aulas digitais da Secretaria Municipal de Educação do Rio, o Educopédia.
Aspectos desse modelo, como a Máquina de Testes, estão sendo ampliados para outras escolas da rede, conta a secretária de Educação da cidade, Cláudia Costin. "O programa, que detecta carências no aprendizado, já está sendo utilizado nas instituições que possuem os mais baixos desempenhos do município, para que a aprendizagem seja mais focada", diz.
Confira a reportagem original clicando aqui

Assim que vi essa reportagem lembrei-me de Skinner e sua famosa Máquina de ensinar.



domingo, 15 de setembro de 2013

Colunista do comporte-se

Olha aí uma bela oportunidade....não custa nada tentar!!!!

QUER SER NOSSO COLUNISTA? Esta é sua oportunidade! Para ser colunista do Comporte-se, você precisa: - Gostar de Análise do Comportamento - Possuir domínio adequado dos conceitos da abordagem - Ter facilidade com prazos. Para ser um colunista do Comporte-se você precisa cumprir os requisitos de assiduidade e domínio do tema sobre o qual redigiu. Você fará parte de um cronograma de postagens bimestral cujo processo de submissão e publicação atende às seguintes etapas: 1) envio do texto para revisão em data pré-estabelecida; 2) aguardo da revisão por revisor designado pelo Comporte-se; 3) recebimento de parecer com aprovação; reprovação ou aprovação com alterações; 4) publicação do artigo no Comporte-se com as devidas correções realizadas, se necessário, e aprovadas pelo revisor. Entre a data de submissão e a de publicação bem como entre a publicação e a submissão seguinte, há um intervalo de quatro semanas, mantendo assim o esquema de uma publicação a cada dois meses. Cada colunista publica sobre um tema específico. Exemplos: Cinema e Análise do Comportamento, Clínica Infantil, Autismo ou outros. As publicações são em forma de artigos com até 3 páginas, excluindo-se o espaço gasto pelas referências. A linguagem deve ser simples, mas conceitualmente bem fundamentada. Caso tenha interesse, envie um artigo nestas configurações, fonte times new roman 12, para contato@comportese.com

Maiores informações no site do Comporte-se: http://www.comportese.com/

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